20 dezembro 2011

Redacção



Mãe

Encontrei entre os papéis que havia na sua casa e que eu guardei religiosamente, este caderno com redacções escritas por si, no Colégio de Vila do Conde em 1927, tinha a Mãe 13 anos.

Parece uma renda!!! Tanto a letra, como a maneira como escreve.

Muito poética e contemplativa.
Muito diferente da Mãe que eu conheci, com os pés bem assentes na terra e muito mais prosaica.

Transcrevo uma delas:

Tema: Belezas do campo e do mar

"Quanta beleza há nestes dois aspectos que a natureza nos oferece. O campo!!! Ó maravilha das maravilhas. Para toda a parte para onde nos viremos e em todo o tempo teremos sempre novas belezas a admirar.
No Inverno tudo nos parece triste. São as árvores completamente despidas dando-nos a impressão de terríveis fantasmas. Os jardins que ainda há pouco se ufanavam das suas magníficas flores já não possuem agora mais que troncos secos e aqui e além uma ou outra flor. São ainda sobretudo os passarinhos que já não nos vêem alegrar com os seus alegres gorgeios. Mas no entanto no meio de todas estas tristezas há de vez em quando uma nota alegre. É a neve que cai cobrindo os campos com um alvo tapete e que parece destinada a vir purificar a terra depois das chuvas torrenciais que enlamearam os caminhos.
Vem depois a Primavera a delícia das estações. Que beleza e poesia nos oferece uma manhã de Abril. Nem a menor núvem tolda o azul do céu nem a mais leve brisa prepassa pelo espaço. Os passarinhos começam a fugir aos calores tropicaes e vêem pedir asilo aos beiraes dos nossos telhados. As flores começam então a despontar sorrindo aos primeiros raios de sol que as acariciam. Aqui e além vêem-se rebanhos pastando guardados às vezes por míseras criancinhas que principiam assim desde pequeninas a ganharem o pão de cada dia. Tudo isto nos enche a alma de poesia e de agradecimentos para com Aquele que é o autor de tantas maravilhas.
Mas ainda não param aqui todas as belezas do campo. Ainda há mais. Há ainda o Verão: Como é delicioso nesses dias de grande calor um passeio atravez dos prados agora soberbamente engalanados.
As árvores têem já outro verde que se mistura com as cores variadas dos apetitosos frutos, que o doirado sol de Agosto virá por completo amadurecer. De vez em quando há um esperto regatosinho que corre velozmente para ir refrescar os campos seus amigos..
Nunca mais acabaria se quizesse descrever uma a uma todas as belezas do campo; porém ainda há uma que é impossível deixar de descrever; é a das folhas caídas no Outono. Atravessam-se campos e campos e sentimos sempre debaixo dos pés o estalar das folhas secas que começaram por amarelecer e caíram por fim exaustas da missão cumprida. Tudo isto nos leva a amar e apreciar o campo.
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No entanto não se pode desprezar o mar! Esse mar cantado por todos os poetas; esse mar, numa palavra "Belo e Selvagem" que ora é bravo como amansa repentinamente.
A brutalidade dos seus assaltos contra a praia e os rochedos grava-se de maneira pavorosamente sensível na memória do povo.
São as tempestades desvairadas e furiosas esbofeteando os penhascos e deglutindo esquadras. São as trombas de água gigantescas sangue-sugas do oceano e do Céu. É na realidade verdadeiramente brutal o belo mar selvagem nas suas tremendas manifestações de ódio e de pavor. Mas vem o Verão. Insensivelmente arrastada para os sítios de amena temperatura a multidão encaminha-se para a beira-mar à procura dos encantos estivaes das praias.
E aquele mar selvagem rancorosamente adiado pelas suas cóleras e caluniado pelas suas catástrofes passa de repente a ser olhado com simpatia passa a ser  o belo mar; como se o monstro da vespera pudesse milagrosamente transformar-se no mais terno cordeiro mansamente deitado nas praias a brincar com as crianças.
Como tudo isto é belo e no entanto não são mais que pequeninas amostras da beleza de Deus."

Apesar de se ter esquecido da pontuação, pois o texto não tem uma única virgula, parece-me extraordinário que uma miúda de 13 anos tenha uma tão grande riqueza de linguagem e use metáforas e outras figuras de estilo, com tão grande facilidade.

Parabéns Maria da Luz.

2 comentários:

  1. A avó escreveu isto com 13 anos???? Ufanavam??? Toldam??? Gorgeios??? Metaoras umas atrás das outras....
    Aos 34 anos nunca escrevi, nem me considero capaz de escrever, algo semelhante, tão rico em vocabulário ou com tantas figuras de estilo... de facto os tempos são outros, infelizmente bastante mais pobres no que a este assunto diz respeito...

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  2. Com A sua facilidade em escrever, quantas redacções me deixou feitas pq eu não tinha jeito nenhum!!!!!

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