Os primeiros anos de casada
Todos os fins de semana o jovem casal feliz e contente punha-se a caminho da Quinta.
Como não tinham carro, iam a pé e faziam-no, segundo a Mãe contava, de mão dada e a cantar a “Marseillaise”:
“Allons enfants de la Patrie,
Le jour de gloire est arrivé...
........................................
........................................”
Não sei se não sabiam cantar mais nada ou qual a razão deste hino, para os acompanhar na sua passeata.
A caminho da Quinta
A minha Mãe que era a Mariazinha desde pequena, passou a ser a Maria para todos os que com ela conviviam nesta altura, e só muitos anos mais tarde, já nós todos tínhamos nascido, passou a ser a Maria da Luz. Depois, quando teve netos, passou a ser: a Avó Luzica para os filhos do João, para os da Isabel e para as minhas; a Avó Luz para os do Pedro e a Avó Lúzica para os da Tété.
Nos primeiros anos de casada teve que começar a adaptar-se ao feitio rabugento do marido e sobretudo a fazer “a ponte” de forma a não haver zangas entre ele e o seu Pai e irmão, que ela adorava. Vivendo em casa do Avô Morais, tinha que ser muito diplomata, para que tudo corresse bem.
Havia também que ser diplomata com a família do Ti Matos que vivia por baixo e que não tinha jeito nenhum para os negócios, pois tinha sido criado como menino rico e não estava habituado a trabalhar. Gostava mais de pândega e de gastar dinheiro.
Os negócios começaram a correr mal e o Ti Matos acabou por vender a sua quota na sociedade e metade do prédio, à família Pereira Nina. Como o Avô Morais não tinha também dinheiro para comprar e não podia ficar com as coisas a meio, vendeu também a sua parte.
Toda a família Matos foi viver para a Figueira da Foz e os Pais e o Avô Morais ficaram na mesma casa, mas como inquilinos do Sr. António Pereira Nina.
O Titó
O Titó, um rapaz espertíssimo mas muito mimado, estava habituado a ter um Pai e uma irmã que só sabiam dar-lhe carinho e fazer-lhe todas as vontades.
No seu 7º Ano, estudando em Coimbra, perdeu todas as cadeiras.
O Pai, convenceu o Avô Morais que ele devia ficar de castigo, a trabalhar no Lagar de Azeite e o melhor era deixar de estudar.
O Avô Morais, para não criar mau ambiente concordou, mas foi com o coração amargurado que, tanto ele como a Mãe, viram o menino querido, durante todo um ano, a trabalhar na Quinta, como os filhos dos caseiros.
Foi concerteza boa para o Titó esta experiência e depois de estar um ano a trabalhar e a reflectir, lá conseguiu convencer o cunhado que queria mesmo estudar e que se tinham acabado as pândegas.
Foi para Lisboa, acabar o seu 7º Ano que fez com notas brilhantes, entrou para Agronomia onde nunca perdeu um ano e no fim do curso, foi convidado para Assistente da cadeira de Arboricultura.
O Pai foi mais tarde muito amigo do Titó.
Na altura da 2ª Grande Guerra, tinham enormes discussões, pois enquanto o Titó estava ao lado dos aliados, o Pai era germanófilo.
Como eram ambos muito inteligentes, acabaram por se dar muito bem.
Conheceu entretanto no Instituto, a nossa querida Tia Esther com quem casou em 1946.
O Titó foi para a Mãe ao mesmo tempo um irmão muito querido, mas também quase os seu primeiro filho.
A força que os unia por terem ficado sem Mãe, veio mais tarde a reflectir-se na relação que tanto o Titó, como a Tia Esther, tiveram sempre connosco.
A Mãe com a Tia Esther amigas “para sempre”
O Pai com o Titó – dois grandes amigos
Casamento do Titó e da Tia Esther
O Titó e a Tia Esther foram uma espécie de segundos Pais para os meus dois irmãos.
Acompanharam-nos em Lisboa, quando eles vieram muito pequenitos para o Colégio Militar, dando-lhes todo o apoio que eles precisavam.
Muitos Natais, quando já éramos todos crescidos, foram passados no Campo Grande em sua casa.
Várias vezes juntamos as duas famílias, na Páscoa, tanto na Quinta como no Algarve.
Lembro-me de uma Páscoa que fomos passar ao Algarve e fomos almoçar perto de uma praia e depois do almoço foi tudo passear para a praia. A descendência destes dois irmãos enchia a praia toda...
Em duas viagens que fiz a Londres, uma com o Pedro e com a Graça, outra com o Pai, a Mãe e a Tia Ema, “apareceu” lá o Titó que, conhecendo bem Londres, não quis perder a oportunidade de estar com os sobrinhos e com a irmã para lhes mostrar tudo.
Sentimos sempre a presença da sua amizade.
Quando adoeceu, lembro-me da aflição sobretudo do Pedro, que passava os dias perto dele.
A morte do seu irmão querido, ainda bastante novo, com 67 anos, foi para a Mãe outro dos seus grandes desgostos.
O Titó tem agora um filho, o Miguel, que graças a Deus continua a tradição de juntar toda a descendência dos dois manos e faz um almoço perto do Natal, na sua Herdade de São Bento, onde reúne toda a família. Este ano eram perto de 100 pessoas.
O meu Pai
Os primeiros anos de casados foram bastante atrapalhados de dinheiro, pois o Pai tinha o seu consultório aberto, mas estava na dependência de aparecerem doentes.
Levava 20$00 (10 cêntimos para quem já só raciocina em euros) por cada consulta e era com isso que viviam.
O Pai no consultório à espera dos doentes
Lembro-me de o Pai contar da sua aflição nas primeiras consultas, pois como não havia os meios de diagnóstico que há hoje (radiografias, tacs, ressonâncias, etc.) tinha que diagnosticar através das queixas.
Isso deu-lhe um enorme poder de diagnóstico que o havia de transformar mais tarde num grande médico.
Quando ele não ligava, a coisa não tinha importância.
Quando se mostrava preocupado, o caso era de certeza complicado.
Uma das coisas que contava, era a maneira como determinava qual a doença de estômago, de acordo com a forma como o doente se queixava:
- Se apontava para dentro – tinha uma úlcera;
- Se esfregava a mão espalmada, fazendo um movimento circular – tinha uma gastrite;
- Se a queixa era com as duas mãos – o caso era mais grave.
Só mais tarde entrou para o Hospital, onde chegou a Director Clínico, especializou-se em Tisiologia e acabou como Subdirector do Sanatório das Penhas da Saúde e Director do Dispensário dos Tuberculosos.
Foi fazer um estágio no Hospital de São José e como não havia cirurgião no Hospital da Covilhã, começou a operar. Primeiro coisas simples, depois apendicites e por fim, até fazia operações ao estômago.
Nas operações ao apêndice, foi batendo consigo próprio recordes sucessivos, para ver se conseguia fazer cada vez mais rápido.
Parecia um miúdo, a fazer “scores” cada vez melhores, com a sua consola de jogos.
Lembro-me de ele chegar a casa, radiante, pois tinha feito um apêndice em 12 minutos (abrir, tirar e fechar)!!!
Teve a coragem de operar a Mãe, a uma apendicite, com um sangue frio que fez a admiração dos colegas.
Mais tarde, tratou sempre toda a família, os amigos e conhecidos, das mais diversas doenças e tinha sempre e sobretudo, um enorme “faro” para descobrir o mal de que cada um padecia.
Era médico de imensas velhinhas (Senhora D. M.ª José Macedo – não queria mais ninguém; meninas Jorge – adoravam-no; todos os caseiros da Quinta – era sempre ele que os atendia, etc. etc.) e tinha como máxima que quanto menos remédios lhes desse, tanto melhor. E o que é certo é que todos gozavam de boa saúde e duraram muitos anos.
Não era, no entanto, pessoa de grande paciência para ouvir e aturar pieguices.
Lembro-me de o ouvir contar histórias, que nos faziam rir, de alguns episódios com gente piegas.
Uma vez, foi em casa de uma senhora que tinha tido um “chelique” e estava desmaiada. Chamaram o Pai de urgência. Ele, pediu para o ajudarem a transportá-la para a cama. Chegou-se-lhe ao ouvido e disse-lhe: “A Sr.ª D. ... está um bocado pesada para estas fitas...” Foi remédio santo. A dita Senhora, envergonhada, acordou e nunca mais desmaiou!
Outra das muitas histórias que contava, era a de uma menina que foi ao consultório queixar-se e em cada frase dizia um “portanto”. O Dr. Amadeu que já estava farto de a ouvir, a certa altura interrompeu-a e disse: “ Sabe o que a menina tem? Tem um “portanto” encravado”. Nem imagino a cara da rapariga!!
Era, no entanto, muito brioso com tudo o que fazia e descrevia-nos com pormenor algumas das suas habilidades.
Lembro-me de um homem que teve um desastre de mota e fez um golpe na cabeça caindo-lhe para trás o couro cabeludo. O Pai puxou-lhe aquilo para a frente, coseu-o e ficou com uma ligeira cicatriz.
Outra vez, foi um tecelão que se cortou numa máquina, ficando com os dedos todos dependurados. “Parecia uma flor”...dizia ele. Teve a paciência de estar horas a cosê-lo, como uma costureira de alta costura e conseguiu que o homem ficasse a mexer os dedos, perfeitamente.
Tal e qual como as suas irmãs e a sua Mãe, tinham jeito e eram habilidosíssimas nos trabalhos de agulha, ele tinha o dom da habilidade, neste tipo de situações.
O resultado de todas estas intervenções que a maior parte das vezes eram borlas, era, por altura do Natal, recebermos em casa, perus, cabritos, galinholas, perdizes, trutas, lampreias e tantas outras coisas boas que a Bábá preparava, com arte de excelente cozinheira.
Como já repararam, este livro vai sendo escrito à medida que me vou lembrando e embora seja dedicado à memória da minha querida Mãe, vou aproveitando para contar coisas que sei e ouvi de todos os que a rodearam.
Já que estou a contar histórias do Pai como médico, aproveito para dizer o que penso dele e da sua maneira de ser e o que pude apreciar ao longo dos anos que com ele vivi.
Era o Pai que tudo sabe.
Era um homem profundamente inteligente, culto, sensato, sério, pouco piegas, mas duma meiguice infinita.
Tenho saudades de me sentar no seu colo, coisa que fiz desde pequena até já ter quase cinquenta anos.
Adorava a sua mulherzinha e nunca se importou, devido ao seu feitio reservado, que ela brilhasse mais que ele e soube ocupar bem este 2º plano.
Manteve, tanto nas reuniões familiares como com os amigos, um papel secundário, deixando que a sua extrovertida mulher parecesse que o suplantava.
Mas, a última palavra era sempre a dele.
Quem comandava o barco era ele.
Quem zelava para que houvesse sempre dinheiro para a nossa educação, para os nossos casamentos, para que nada faltasse nunca, era ele.
Foi um Pai maravilhoso, presente nas nossas vidas e do qual passados nove anos da sua morte, me lembro cada vez mais.
Bastante calado e rabugento, tudo o que disse nos ficou gravado na memória e há frases e conselhos que nos deu, que nunca nenhum dos seus filhos e até alguns dos netos se esqueceu.
Nunca me esqueço de na sua missa de corpo presente na Covilhã, a Sr.ª D. Beatriz Pintassilgo me ter dito: “Tiveste um Pai formidável”.
Os filhos
Estiveram dois anos e meio sem filhos, mas no dia 4 de Setembro de 1938 nasceu o menino de oiro, a quem deram o nome dos dois Avós – João António.
Foram seus padrinhos o Avô Morais e a Tia Marília.
João
As regras eram imensas.
O jovem médico, com um ar entendido, explicava que a criança só devia mamar cinco minutos em cada peito e como era preguiçoso e mamava devagar, passava os dias e as noites a chorar.
Como começasse a emagrecer, ficaram aflitos.
Passadas várias noites acordados, a Mãe resolveu que o melhor era deixá-lo mamar à vontade e o tempo que quisesse.
Nunca mais chorou. Coitadinho, tinha fome...
Passado um ano e meio, em 29 de Março de 1940 e para grande orgulho do Pai babado (que só queria ter filhos rapazes) nasceu o Pedro.
Este era o nome que a Mãe tinha escolhido para o primeiro, mas o Pai adiantou-se e foi registá-lo com o nome dos Avós.
Desta vez a Mãe conseguiu fazer a sua vontade.
Foram seus padrinhos o Avô Leitão e a Avó Aurora.
Pedro
Teve muitas visitas quando a criança nasceu e entre elas a sua amiga Génita Tavares que ao pegar no Bébé e ir com ele até à janela, disse:
“Ó Maria, o pequeno é ruivo!”
A Mãe que tinha tido lá em casa durante toda a gravidez, uma criada ruiva chamada Graziela, com quem tinha apanhado várias irritações (braveiras, como ela dizia) pensou que tinha sido um castigo e fartou-se de chorar.
Mais tarde havia de gozar, com esse pensamento tolo que teve quando era nova e adorava o cabelo russo do seu filho.
O Dr. Videira colega do Pai que o foi ver, disse que ele era de um tipo de ruivo raro e muito frágil, pois não tinha olhos azuis nem era pigmentado. Era capaz de ter razão este médico, pois o nosso querido Pedro apesar de ter sido uma criança saudável e um adolescente desportista, deixou-nos muito cedo.
Passou pela nossa vida como um anjo, a quem apenas pudemos tocar de raspão, pois não tivemos tempo de o apreciar em toda a sua grandeza. Tivemos o privilégio de este rapaz, fora do vulgar, ter sido nosso irmão.
Em 23 de Abril de 1943 (uma sexta-feira santa, que só calha a 23 de Abril de 100 em 100 anos) e, como contava a Bábá, trazida por uma cegonha numa cestinha cheia de amêndoas para os manos, chegou a menina por quem todos ansiavam, a Ana Maria – eu.
Os meus padrinhos foram o Titó e a Tia Ema.
A Ana Maria (Anamenim)
A Mãe descreveu-me tantas vezes o meu nascimento que quase me consigo lembrar.
Com a sua maneira alegre de falar, conseguia prender-nos durante horas, a contar histórias de quando éramos pequenos, dezenas ou centenas de vezes e por isso, talvez, para todos nós a infância está muito presente na nossa memória.
Passado cerca de um ano e meio, ficou novamente à espera de bébé o que não lhe apetecia muito. A Tia Marília para a consolar dizia-lhe: “Deixa lá Maria, vale mais isso do que partir uma perna”.
Parecia que adivinhava, pois passados uns meses e já com a gravidez adiantada, ia a descer as escadas comigo ao colo e de sapatos de salto alto, como sempre usava, tropeçou e para me defender, caiu para trás e partiu mesmo uma perna. Esteve estendida e com um peso, durante um mês.
Foi sempre dada a acidentes deste género e mais tarde, partiu os dois colos do fémur, uma clavícula, a cabeça várias vezes, fora as vezes que caiu, já era velhinha, na sua casa de Lisboa. O Pai fartava-se de lhe dizer: “Tu morres de morte macaca”!
Em 30 de Abril de 1945 nasceu a minha irmã Maria Teresa que teve como padrinhos, a Sr.ª D. Maria José Macedo e o Sr. José Alçada.
A menina eléctrica
A “menina eléctrica” como todos lhe chamávamos, veio alvoroçar toda a família habituada à calma e pachorrentisse da “Anamenim” – eu.
O João que baptizava todos, começou a chamar-lhe Tété e ainda hoje é a Tété, a Tia Tété, a Avó Tété.
Nesta altura já os Pais viviam um pouco mais desafogados.
O Pai como médico tinha direito a ter carro apesar de nesta época do pós 2ª Grande Guerra, poucos o poderem ter.
Tinha um Ford de matrícula UU a que chamávamos o Ford de “calças arregaçadas”.
Como já nesta altura adorava jogar na roleta, iam volta e meia até à Figueira e a Espinho, com a Tété que ainda mamava e que conheceu os bengaleiros de todos os casinos.
O Ford
O Pai costumava contar o que sentiu em relação ao nascimento de cada filho, assim:
- O 1º foi uma alegria, o primeiro rapaz, o filho varão.
- O 2º achei a maior das graças por ser outro rapaz.
- a 3ª foi a 1ª menina, também muito bem recebida.
- a 4ª...seja o que Deus quiser!!
e... ainda veio a 5ª que o Pai se convenceu que seria um rapaz e que se chamaria Zé Maria.
Afinal foi uma menina – Maria Isabel
Nasceu a 18 de Outubro de 1948 e o João começou a chamá-la Bébé, nome que lhe ficou até ser já crescidinha.
Foram seus padrinhos, a Tia Esther e o João.
A Mãe com a Isabelinha
Nós os cinco no Estoril
Quando a Isabel nasceu, o João ia pela primeira vez para o Colégio Militar, com os seus 9 anos muito ingénuos.
A Mãe contava que lhe disse não poder deslocar-se a Lisboa, para o levar ao Colégio, pois tinha que ficar à espera de um novo irmãozinho.
E o João, na sua candura de criança nascida e criada num ambiente tranquilo e no qual esse tipo de coisas não eram faladas, disse muito despachado:
“Pois, pois, é melhor não ir e o Pai também é melhor cá ficar à espera que o Bébé chegue, pois coitadinho, pode chegar cá e não ter cá os Pais...”
Éramos todos assim em pequenos. Cândidos, ingénuos, criados num ambiente super protegido, com um Pai meigo mas austero e uma Mãe exigente, mas atenta e muito nossa amiga.
A educação que nos deu
As recordações que tenho da Mãe é que era muito severa, sobretudo comigo que era a mais velha das meninas.
Lembro-me de ter sido educada com um enorme sentido de ter muitos deveres e poucos quereres.
Fomos acarinhados, mas tivemos apenas o essencial e pouco o supérfluo.
As roupas, passavam de uns para os outros e só me lembro de ter os primeiros sapatos de rapariga, já com dez ou onze anos.
O mesmo se passava com o material escolar. Lembro-me de olhar com um ar cobiçoso para os tira-linhas das minhas companheiras de colégio, que faziam um risco fininho, enquanto os meus esborratavam tudo, pois já tinham sido dos meus irmãos.
Como nós, raparigas, andávamos sempre vestidas de igual e os vestidos iam passando de umas para as outras, a Isabel, a mais pequenina, passou vários anos a usar vestidos iguais...
A nossa infância passou-se num misto de exigência pelo trabalho cumprido e pelos deveres para com os outros e a fantasia de histórias e acontecimentos que nos deslumbravam a imaginação e nos faziam sonhar.
A exigência
Ouvimos vezes sem conta a “Parábola dos Talentos” e tanto a Mãe como o Pai nos diziam amiudadas vezes que era preciso ser “o melhor”.
Cada um de nós devia tentar pôr a render os dons que Deus lhe deu.
“Vale mais ser um bom sapateiro do que um mau engenheiro...” diziam-nos repetidas vezes.
O Pai preocupou-se sempre mais com os rapazes, com os quais desde pequenos e mesmo já depois de crescidos, tinha enormes conversas.
Lembro-me de o ver com um filho de cada lado, andar durante horas de um lado para o outro e à conversa, no terraço lá de casa ou no pátio da Quinta, sempre que eles vinham a férias.
A Mãe falava muito com todos, mas sobretudo com as raparigas, principalmente à noite quando já estávamos na cama, sentava-se junto a nós e falava e contava e falava...
Mas quando achava ser necessário, era dura e inflexível.
Há algumas cenas da nossa infância que não posso deixar de contar pois definem bem o seu carácter duro e autoritário.
Devia eu ter uns 5 ou 6 anos e por qualquer razão só podia comer papa.
Fomos convidados para ir lanchar a casa da Sr.ª D. Benvinda Parente que vivia no andar debaixo pois a família do Ti Matos já tinha ido para a Figueira da Foz.
Eu, com vergonha de levar as papas atrás, disse que não queria ir. A Mãe como não conseguisse convencer-me a bem, tirou o sapato (que usava sempre com saltos altos) e deu-me com ele no rabo. Nunca mais me esqueci, mas não fiquei traumatizada como agora as crianças ficam, pois naquela altura não havia traumas. Claro que fui e levei as papas...
O Pedro que era muito maniento com as comidas (as manias foram uma das suas características) não quis um dia comer arroz de polvo ao almoço, porque não gostava.
O arroz foi para dentro e não o deixaram comer mais nada. Ao lanche, apresentaram-lhe, por ordem da Mãe, o mesmo arroz de polvo que não comeu e ao jantar a cena repetiu-se.
Foi para a cama sem comer nada durante todo o dia.
A certa altura levantou-se e veio à sala a chorar: “Ó Mãe, dê-me o arroz de polvo que eu estou cheio de fome...”. Comeu e ficou o maior apreciador desse prato que tão bem era feito na nossa casa.
Quantas vezes a ouvi dizer, já mais tarde, quando recordava o seu filho adorado: “Coitadinho, como é que eu fui capaz de tamanha dureza. Se fosse agora, deixava-o gostar ou não gostar do que quisesse...”
A Tété já foi educada com muito maior benevolência e a Isabel, a mais pequena, só fazia o que queria.
Os deveres
Quanto aos deveres para com os outros, foi-nos, sobretudo, incutido o respeito pelos mais velhos, pela autoridade, pelos nossos governantes e também o respeito pelos que nos serviam.
Nunca, apesar de na época da nossa meninice haver muitas criadas em casa, podíamos pedir um copo de água ou que nos fizessem alguma coisa que nós, por preguiça, não quiséssemos fazer.
Valia-nos a Bábá que nos fazia todas as vontades.
Nos Invernos frios da Covilhã, acordávamos às vezes com medo e chamávamos sempre a Bábá.
Tenho impressão que ela pouco dormia pois mal a chamávamos, aparecia logo e se lhe pedíamos para ficar ali ao pé de nós, ela nunca se recusava: “Vá minha linda, durma descansadinha que eu fico aqui...”
Se tínhamos tosse, sentíamos logo uma colher de mel que era ela que nos trazia, no seu desvelo pela saúde e bem estar dos seus meninos.
A Mãe queria-nos fortes e despachados e nunca se coibiu de nos ditar as nossas obrigações.
Como diz a Isabel no seu depoimento, as suas frases preferidas eram: “Tens que..., Já foste?...Já fizeste?...
Quando éramos raparigas novas, em férias, e nos apetecia ficar um bocadinho mais na cama, aparecia-nos no quarto e dizia: “as estátuas da preguiça...já fui à missa e já encontrei a Judite e a Noémia e todas na rua e vocês aqui na preguiça...” Como se levantava todos os dias cedo, não compreendia como é que nós e o Pai gostávamos de ficar na cama de manhã.
Já éramos todos grandes e ainda se preocupava em nos lembrar dos aniversários de toda a gente e das obrigações que tínhamos em telefonar a este e àquele.
No que se refere a datas tinha esta característica excepcional de fixar as datas todas. Sabia e soube até ao fim da sua vida, as datas dos anos de toda a família, incluindo as dos maridos e mulheres dos netos e de todos os bisnetos e também das pessoas amigas. Não só sabia as datas, como sabia quantos anos faziam todos.
O Pai, que não ligava nenhuma a isso, chamava-lhe o “Zézinho Arara” alcunha que tinha um homem maluco que havia na Covilhã e que sabia o dia de anos de todas as pessoas da terra que anunciava em altos berros, no meio do Pelourinho.
O Sonho
Sonhamos acordados com as histórias contadas repetidas vezes, sobretudo pelas criadas, de fadas, princesas e madrastas más.
Sonhamos com os livros da Condessa de Ségur e mais tarde, nós com as “Brigittes” e os irmãos com “Os Três Mosqueteiros”.
Foram também um sonho bom, os Natais e as Páscoas e todas as festas religiosas que, na Covilhã, eram vividas com grande intensidade.
Acreditámos que era o Menino Jesus que punha os presentes no sapatinho até aos 10-11 anos.
Todos os anos, em meados de Dezembro, chegava da serra um cesto com musgo que cheirava a fresco e nós ajudávamos a Mãe a fazer um enorme presépio, cheio de ovelhinhas, pastores, lavadeiras, patos, um lago...
A tradição, era jantarmos em casa, irmos à missa do galo na Igreja da Misericórdia e depois cearmos em casa da Avó onde comíamos chouriças assadas (feitas pela Avó Aurora), com ovos mexidos. Uma tradição, que não tem nada a ver com o que se usava nas outras casas...mas...que era a nossa.
Cada um tinha um presente no prato.
Os primos, Rui e Jorge tinham os seus presentes junto ao presépio, mas só no dia seguinte, como em nossa casa.
A seguir à ceia havia sempre um teatro ensaiado pela Tia Ema.
O João, o Pedro e o Rui, faziam uma peça que era quase sempre o João a imitar o Avô na loja, o Pedro era um cliente e o Rui um empregado.
Punham toda a gente a rir.
Eu, recitava “O Pucarinho de Barro” e a Tété cantava a “Chiquita bacana”.
Houve um ano, do qual não me lembro pois era ainda muito pequena, em que a Mãe como tinha muitos presentes e não cabiam no sítio do costume, os pôs numa sala diferente.
Os meus irmãos, tinham umas botas que ainda não tinham estreado e antes de se deitarem foram pô-las ao pé do presépio.
No dia 25 de manhã, foram acordar a Mãe muito aflitos: “Ó Mãe, o Menino Jesus não nos deixou nada, e ainda por cima levou-nos as botas novas...”
As histórias da nossa infância são tantas, que como a Lila diz no seu texto, mais à frente, “outro livro teria que ser escrito...”
As Páscoas eram outro “happening”.
Os preparativos começavam com “as limpezas grandes ou limpezas da Páscoa” que eram para a Mãe “um ponto de honra”.
Tudo saía do sítio.
Não havia canto que não fosse devidamente esfregado.
As carpetes e passadeiras iam todas para o terraço onde eram batidas com violência, os “amarelos” ficavam a luzir e as “pratas” a brilhar.
E ficava no ar um cheiro a cera e a limpeza.
Tudo isto era feito por um batalhão de criadas que a Mãe dirigia com toda a sua autoridade.
Para nós, era uma confusão a que nos fomos habituando, mas tenho impressão que nenhuma de nós nunca procedeu a esta operação minuciosa nas nossas casas. Não sei bem para que era tanta limpeza pois penso que nessa altura na Covilhã, não havia pó e muito menos poluição, como a que existe hoje em dia nas nossas cidades.
Vinha então a Procissão dos Passos, quinze dias antes de Domingo de Páscoa, na qual nós as três fomos vestidas de anjo, acompanhadas pelos confrades da Misericórdia (Avô Leitão e Avô Morais).
A Tété que ia acompanhada pelo Sr. José Alçada, seu padrinho e Provedor da Misericórdia, era sempre o último anjo e para nossa vaidade (e da Mãe) “o mais importante”.
As meninas vestidas de anjo
Os rapazes com a farda do Colégio Militar
Seguia-se a procissão de 6ª Feira Santa ou do “Enterro do Senhor” em que os anjos levavam mantilhas pretas. Esta procissão ainda hoje se realiza e é uma tradição impressionante, pois é acompanhada por um som metálico “as matracas” e passa por toda a cidade que se veste de luto, de respeito e de silêncio.
No Domingo de Páscoa esperávamos todos vestidos de “ponto em branco” incluindo o Pai que aparecia todo perfumado e com o cabelo esticado de brilhantina (o gel da época) pela chegada do Sr. Prior com os acólitos.
Era uma excitação.
Ainda me lembro, como se fosse hoje, da nervoseira que nos causava o sino que o sacristão trazia, os pingos de água benta nas nossas cabeças quando o Sr. Prior abençoava a casa e a barulheira que faziam na rua os “garotos da Aleluia”.
Cada um de nós devidamente provisionado com uns rolinhos de moedas de 1 e 2 tostões e meia dúzia de moedas de 5 e 10 tostões (que o Avô Leitão nos tinha preparado) íamos para a janela e atirávamos aos garotos que se acumulavam na rua como se fossem macacos.
Como este, muitos outros episódios da nossa infância, não nos prepararam minimamente para vivermos no Portugal do pós 25 de Abril, mas...cá nos fomos adaptando!
A religião
Desde muito pequenos e pela mão da Mãe aprendemos a rezar.
Todas as noites nos ia aconchegar a roupa e foi ela que nos ensinou uma oração que ainda hoje todos nós rezamos e pelo menos alguns, senão todos os seus netos e bisnetos:
“Boa Noite meu Jesus
Até amanhã que eu desperte
Fazei que o laço que nos une
Cada vez mais se aperte.”
Apesar de ter um marido sem fé, conseguiu conduzir-nos no caminho da religião, no sentido de sermos uns bons católicos.
O Pai que não era propriamente ateu, mas “anticlerical” como ela dizia, nunca se intrometeu muito neste capítulo, mas embora não fosse praticante, deu-nos o exemplo de marido exemplar e óptimo Pai, bem como de seriedade, transmitindo-nos os principais valores morais.
A religião dominou o ambiente da nossa infância.
O sino da Igreja de São Tiago, com o seu relógio que tocava cada quarto de hora, embalou os nossos sonos e o carrilhão anunciou-nos as missas e os ofícios religiosos.
Além do Natal e da Páscoa, todas as festas religiosas eram marcos importantes em cada ano que passamos na Covilhã.
A feira de São Tiago, o São João, o São Pedro, a Epifania, o Corpo de Deus, Todos os Santos, o mês da Imaculada, a Assunção e a Ascensão, o São Miguel, etc., etc., dividiam o ano em acontecimentos que eram sempre festejados e nos enchiam a vida, de procissões, feiras, missas e cerimónias religiosas.
As irmãs doroteias do Colégio que nós raparigas frequentamos, ajudaram nesta educação carregada (talvez em exagero!) de religião.
Massacraram-nos a infância com o medo do inferno e os pecados.
Foram-nos contadas à exaustão as histórias de mártires e de crianças que tinham ganho o céu “com merecimento”: o pequeno Tarcísio que durante o império romano morreu com as hóstias apertadas contra o peito (não me lembro porque as levava); a Sãozinha (já não me lembro o que fazia); o pequeno Guy de Fontgaland (à semelhança do que afirma António Alfredo Alçada Baptista na sua “Peregrinação Interior” também eu embirrava com esta criança); a vida de Santa Maria Goretti, de Santa Teresinha do Menino Jesus e dos pastorinhos de Fátima; a Beata Paula Frassineti (ainda hoje, as minhas filhas por minha influência sem saberem bem quem é, lhe pedem ajuda antes dos exames.)
A mim que sou mais dura de maneira de ser, todas estas histórias tocaram-me apenas ao de leve. A minha irmã Tété, mais sensível, sofreu e chorou por cada uma destas crianças e além de rezar pela minha conversão, tentava imitar os mártires e os meninos de Deus.

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